Abaixo os trotes
por Luiza Prigenzi em 10/02/09 às 11:46
Abaixo os trotes se não existe o trote do bem.
Agressão sem propósito. Atitudes desumanas. Jovens que se transformam em agressores para recepcionar os novos alunos, os calouros, que chegam às faculdades.
Foi triste saber de mais um caso de violência neste começo de ano relacionado aos trotes nas faculdades. Segundo noticiado pelo O Globo, Bruno Ferreira, de 21 anos, entrou em coma alcoólico durante trote em Leme, interior de São Paulo. Trata-se da Faculdade Anhanguera, curso de Medicina Veterinária. O jornal diz que alguns veteranos agrediram os alunos e deram um banho nos calouros com animais mortos e estrume. Os estudantes também foram obrigados a comer ração de cachorro, nadar na lama e ingerir muitas bebidas alcoólicas. A notícia diz que Bruno estava desacordado e sentado em uma cadeira amarrado a um poste e que foi chutado, caiu no chão e bateu a cabeça.
O assunto trote me incomoda profundamente. Perturba muito perceber que alguns alunos veteranos soltam sua imaginação e transformam-se em agentes violentos crédulos na impunidade. A minha motivação em tratar esse assunto aqui é devido meu inconformismo em relação à questão. Também representa uma resposta às lágrimas da minha mãe ao saber do ocorrido em Leme através do programa Mais Você. No site do programa você pode ver um vídeo com a imagem dos marmanjos agressores e o depoimento emocionado do pai de Bruno. Veja também a reportagem no Jornal Hoje da Globo. A minha mãe se emocionou com a notícia porque retornaram todas as lembranças do que ela viveu em um dia de 1992 quando a minha irmã entrou para a Faculdade de Medicina da PUC em Sorocaba.
Nesse dia os calouros , entre outras coisas, foram obrigados a um banho na piscina de óleo diesel. Eles foram amarrados com cordas e levados, um a um, para a tal piscina. O estudante saia de lá negro, com óleo diesel da cabeça aos pés. As roupas grudavam no corpo, me lembro da minha irmã dizendo que alguns ficaram semi- nus como efeito do óleo impregnado nas roupas. Para remover o óleo, minha irmã precisou tomar banho de cima a baixo com uma caixa inteira de sabão em pó Omo. A minha mãe precisou lavar seus cabelos doze vezes, com sabão de côco, porque o shampoo “não pegava”. Apenas em dias posteriores, depois de repetidas lavagens, os cabelos aceitaram o shampoo. Precisou lavar mãos, unhas e braços com escova.
Aconteceram trotes piores na Medicina da PUC Sorocaba em anos posteriores como o caso de um aluno que foi forçado a beber. Eles estava em uma república de estudantes e alunos veteranos jogaram álcool no seu corpo e depois atearam fogo. Percebendo o que tinham feito apagaram o fogo em tempo mas o rapaz chegou a ficar internado em hospital. Houve também aquele caso da USP quando um calouro perdeu a vida. Infelizmente as notícias sobre trotes violentos são várias. Não tenho informações sobre como está o trote na PUC Sorocaba hoje em dia. Acredito que devem ter ocorrido mudanças porque soube que em um ano o trote foram arrecadações para inciativas sociais. Plantaram árvores também. Parece que faz mais sentido, não parece?
É importante que os pais saibam que existe um “termo de adesão ao trote” que é apresentado pelos alunos veteranos das faculdades aos calouros como precaução contra eventuais problemas. É importante que os pais alertem seus filhos de que um termo como esse de nada os protege, protege sim os veteranos.
Vejam o depoimento de Bruno que se recupera do trote na casa dos pais (colhi no site do Jornal Hoje): “Naquela escola, não pretendo voltar. Se fizeram isso com um ser humano, o que não fariam com um bicho? Que veterinários são esses?” Falou tudo Bruno!
Uma pergunta que não quer calar: Como que a gestão da Faculdade Anhanguera permitiu que esse trote acontecesse? O sentimento que fica é que foram omissos. No G1: “A Faculdade Anhanguera informou, por meio de nota, que repudia qualquer tipo de agressão e que vai abrir sindicância para apurar os responsáveis. Os alunos poderão ser expulsos.” Ainda assim, fica um gosto amargo.
Não tenho a intenção de esgotar o assunto neste post. Se você tem informações que possam ser úteis ou sabe de leis que foram criadas contra o trote divulgue aqui no campo ‘deixe um comentário’. Convido pais e mães para que deixem seu desabafo, para educadores e administradores de escolas que externem suas opiniões sobre o assunto, e alunos calouros e veteranos que escrevam sobre seus pontos de vista, suas inquietações e experiências. Se quiser participe simplesmente dizendo não aos trotes!

Aline Staingh
08/02/10
Em virtude dos trotes violentos, algumas faculdades (só tenho certeza no curso de medicina de Sorocoba) junto com a polícia civil e a federal infiltraram jovens (meninos e meninas) que se passarão por bichos para a prisão em flagrante dos veterenos que usarem de violência com risco de vida ou humilhação extrema. Tais práticas poderão ser consideradas como tortura até tantativa de homícidio e as prisões serão imediatas.